Uma pomba preta pousou em minha janela. Já faz quatro dias que ela está lá. Não consegue voar. E nem eu empurrá-la. Pombas, na verdade, não servem para nada. Não desempenham função efetiva em qualquer nível de qualquer cadeia alimentar. Transmitem doenças urbanas e outra série de malefícios para toda a cidade. Verdadeiros parasitas, totalmente inúteis, ratos alados. Ela não consegue entrar no meu quarto, por causa da grade, nem eu pegá-la. Poderia empurrá-la, a janela é no segundo andar. Provavelmente ela morreria. Não faria diferença. Eu pensava. Mas como eu disse, já faz quatro dias que ela está lá. Como ainda não morrera de sede ou de fome? Foi então que fiquei observando e percebi que, vez ou outra, vinham outras pombas e traziam-lhe comida. Deviam ser amigas, ou quem sabe, até família. Afinal de contas, faria diferença. Faria toda diferença. Deve ter sido por isso que não consegui empurrá-la. Aliás, por que alguém a empurraria? Só vejo um motivo possível: inveja. Quer dizer, apesar de no momento estar impossibilitado, aquele ser inútil e desprovido de qualquer inteligência sabia como voar. E muitos adorariam poder voar. Mas, não podendo, então que ninguém mais pudesse…

Originalmente às 5:45
Ao terminar de postar este texto a pomba já não mais estava na janela.

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