O céu estava escuro feito uma manhã ensolarada que esquecera de amanhecer e ficara presa no silencioso mistério da madrugada.
O vento soprava forte e em mão única, feito enxurrada que desce uma rua suja num dia chuvoso de outono.
O dia quente e abafado misturava-se com a gélida noite de lua cheia e não mais se sabia o que era sol e o que era lua.
O ecoar constante do silêncio atravessava todos os prédios da cidade feito feixe de luz forte em vidro fino.
A dúvida se espalhava pelas ruas e avenidas, como se espalha uma praga de ratos em meio a imundice.
A crosta de poluição preta cobria todo o globo, envolvendo-o qual faz uma mãe com seu único filho.
O tempo pairava no ar, estático e imóvel, feito fotografia tirada em preto e branco, que registra um segundo e esquece os outros.
A poeira, no entanto, corria sem parar e sem saber para onde, feito um náufrago perdido que nada no meio do oceano.
E então fizera-se a luz. E o dia amanheceu…
Ah, que seria da vida se o dia não amanhecesse?
Mas que seria do dia se a madrugada não existisse?
E que seria de qualquer coisa, se seu oposto não houvesse?
A beleza está no equilíbrio.
Porque o bom sem o ruim seria apenas o normal.