Hoje eu flutuei. Conversava com os amigos na escola e, quando dei por mim, meus pés lentamente estavam deixando o chão. Fazendo movimentos com os braços, tentava achar uma direção a seguir, empurrando o ar para trás e jogando meu corpo para frente. Era quase como se eu estivesse nadando no ar – ainda que estabanadamente graças a euforia diante de minha descoberta. Aos poucos, meus amigos também abandonavam o solo e juntavam-se a mim naquela experiência única e emocionante. Brincávamos, fazíamos piruetas, nos divertíamos de todos os jeitos que conseguíamos imaginar. Após algumas horas, cansamos e o peso foi se fazendo sentir no corpo, que aterrissava suavemente ao solo, quase como se respondesse perfeitamente aos nossos desejos e pensamentos. A felicidade daquele momento era tão absurdamente grande e irreal que passei a questionar minha sanidade mental. Ao descobrir que estava em pleno gozo de todas as minhas faculdades mentais, percebi que sonhava. Acordei e caminhei até a escola. Nunca uma simples caminhada me pareceu tão triste e decepcionada. Meus passos se arrastavam como se carregassem toneladas. O fato de ter que andar era extremamente irritante e perturbador. Cheguei a escola e encontrei meus amigos. Eles caminhavam. Mas nenhum deles parecia sentir o peso que eu sentia. Não percebiam que há pouco estavam flutuando e que agora eram obrigados a andar. Ao me sentir triste por eles não lembrarem daqueles momentos tão absurdamente felizes, me senti mais triste por mim, que lembrava mas não podia retornar àquele estado. O resto do dia correu da mesma maneira pra mim, triste e deprimente. À noite, porém, lembrei que poderia dormir e flutuar novamente. Estava ansioso. Dormi. Mas os sonhos que sonhei eram apenas normais. Em nenhum deles meus pés saíam do chão. Acordei ainda mais triste do que no dia anterior. Noite após noite eu tentava voltar a escola e flutuar, sem sucesso. Depois de muito tentar, estava exausto. Um dia acordei, abri a janela e decidi que iria voar. Consegui. Hoje não sei mais como é não poder deixar o chão. Todo dia de manhã, saio pela janela para observar como está o tempo, se vai chover, se as nuvens estão muito carregadas ou se o dia será ensolarado. Mas isso eu nunca contei a ninguém – não entenderiam. Então, fora minhas viagens pelo céu matinal, levo uma vida normal. Mas sinto pena de quem só sabe viver com os pés no chão…